Entrei receioso na sala de heteroidentificação. Passara os meses que antecederam a esse momento conversando com todo mundo que pude: militantes políticos; profissionais do direito; até um sociólogo e uma antropóloga. Precisava de ajuda para passar no concurso e estava disposto a reivindicar um direito, porém temia cometer uma injustiça. À frente três pessoas avaliariam a minha declaração: uma senhora branca de olhar sereno e compassivo e um falar doce, quase maternal; um homem de meia idade de pele morena (semelhante à minha) de fenótipo negro característico; e uma mulher mais nova e com traços negros também marcantes. Foram auxiliados por uma moça que me atendeu e orientou, um rapaz filmava tudo e uma terceira pessoa anotava a ata. Todos me fitavam durante todo o processo.

Apesar de sentir algum desconforto com aquela situação, o clima era descontraído e seriedade com que conduziam o processo não me negava o tratamento cortês.

A senhora foi quem iniciou a avaliação: “Senhor Laudivan, o senhor se auto-declara negro”?

“Negro?!! Não havia essa opção no formulário de inscrição! Lá só havia as opções para branco, preto, pardo, indígena, amarelo. Não negro”, pensei. Como deveria responder? Escolhi, sem nenhuma certeza, reforçar o que marquei: “Não, eu me declaro pardo”.

Percebi de imediato que escolhi a resposta errada. Seus semblantes haviam mudado e dava para ver os três franzirem suas testas. Não saberia precisar o tempo em que permaneceram em silêncio, mas sei que me senti nu, exposto como nunca, e que durou uma eternidade.

“Vocês querem fazer mais alguma pergunta”? A senhora branca mais uma vez tomando a iniciativa. Em resposta a outra mulher sacudiu a cabeça, mas foi o homem falou de forma, meio taciturno: “Não, já tenho tudo que preciso”. A senhora, dirigiu-me a palavra recobrando o tom doce e compassivo: “O senhor já sofreu alguma discriminação”?

Revirei a cabeça procurando: “Será que sofri? Quando foi discriminação e quando não”? Falei de uma abordagem policial meio dura, mas sem demonstrar certeza na voz. Nunca havia pensando nisso e o resultado não mudou mesmo após recorrer da decisão: minha declaração não foi aceita. Então, não sou pardo? Não sou negro?

Meditando nessas questões de lá pra cá, lembrei-me de minha mãe rebatendo algumas declarações de parentes: “Meu filho não é preto não, ele é moreninho e tem cabelo bom”. De quando fui excluído da turma da 3ª série A, sendo mandado para as salas dos repetentes, mesmo tendo notas excelentes, sob a justificativa de que iria ajudá-los. A memória me ajudou a lembrar quem veio junto: um outro colega com os traços negros mais marcados que os meus. Apesar do meu esforço em contrário, só consigo lembrar dos colegas brancos que ficaram na turma A.

Lembrei que fui chamado de vagabundo na frente de todos pela professora de história da sexta série, mesmo sendo eu um aluno estudioso, que sentava na frente e gostava de estudar, que não bebia e não fumava, e ainda era frouxo para briga: um nerd típico. O resultado é que até hoje tenho dificuldades em história e a fase de revolta que se seguiu resultou em algumas infrações reais.

Muito bullying e sentimento de não pertencimento marcaram meu tempo até a 7ª série A, com toda aquela turma branca de antes, alguns que depois tornaram-se meus amigos, e ainda um amor platônico de infância. Entretanto, naquele momento, não me sentia parte da turma, não mais, não convivia com eles, não fazia trabalhos em equipe, sentava sozinho no canto esquerdo ao fundo da sala, só falava com eles o necessário e buscava a turma de repetentes, e de pessoas mais velhas, no recreio.

Recordo-me das revistas policiais onde algo curioso ocorria para as turmas de amigos com quem andava onde normalmente apenas um era revistado e tratado com dureza: se havia alguém com traços negros, era ele, quando não, adivinhe quem o era. Vez ou outra fui chamado de vagabundo ou moleque, mas nem sempre. Houve algumas revistas onde um policial “gaiato” apertou e puxou os meus testículos, houve até uma vez que preferiu-se uma pancada com o cacetete, só de brincadeira (né?).

Já fui chamado de macaco apenas de brincadeira; também já fui impedido de sentar nas cadeiras da frente no ônibus que pegava alunos na escola; fui seguido por funcionários em algumas lojas sem nada ser oferecido; uma pizzaria, certa vez, demorou demais em me atender; desisti de 3 anos de Engenharia de Minas quando, após sucessivas tentativas de passar em química, apelei para o bom senso do velho professor branco. Algo estava errado, já que todo colega a quem ensinava passava, menos eu. A resposta?! “Tá, pode passar, eu te segurei até aqui porque não fui com sua cara, posso te esperar até a próxima matéria”. Foi discriminação racial, não sei, não sou preto, não sou pardo, só carrego a “cor do pecado” e ainda tenho cabelo bom, não é mesmo?

Lembrei-me de tantas outras situações, algumas mais recentes outras nem tanto, algumas mais duras. Que comecei a vida morando em bairro perigoso; até tive que me defender de outro menino armado com faca porque, de tão ruim, o “canelei” no futebol; de ver minha mãe pegar água no chafariz, enquanto eu brincava em meio a esgotos abertos. Das muitas oportunidades negadas no trabalho mesmo quando enfatizavam o quanto sou “inteligente” e “capaz”.

O exame de DNA aponta ancestrais negros do noroeste africano; pesquisando histórias de família para montar minha árvore genealógica demonstram que judeus sefaraditas também compuseram minha família ao fugirem da inquisição católica junto a árabes muçulmanos; e que uma bisavó nativo-americana foi caçada no mato e forçada a casar-se um neto de europeus.

Hoje eu sei que bancas de concurso não são capazes de compreender a complexidade da minha identidade; que parte dos movimentos identitários me querem como militância, porém não aceitam que o meu sofrimento também é resultado de injustiças diversas, inclusive as raciais, pois apesar de não branco, não sou negro o suficiente. Felizmente há quem pense diferente e também sofre por isso, a exemplo da Beatriz Bueno e sua luta antiracista multirracial e seu projeto acadêmico para a conceituação de pardidute.

Agora eu sei que sou tudo e isso e muito mais: sou híbrido; diverso; neurodiverso. Um mestiço de tudo que o brasileiro é; um cidadão do Mundo na pele, no sangue, na cultura e na mente. Portanto, se precisarem de um nome para me classificar, aviso que não há um que abarque toda a realidade do meu Ser. Que seja então: PARDIDUTE.