Não fazia muito tempo que aquele jovem assumira o trono que herdara de seu pai. Consultado pelo criador, seu desejo era um só: entendimento para governar e servir ao povo discernindo o bem e o mal. Porém, logo passaria pelo seu primeiro teste.
Duas prostitutas, que viviam juntas, irromperam o salão real prostrando-se diante do rei.
— Dei à luz a um filho e três dias depois esta outra mulher também teve o seu sobre o qual ela, enquanto dormia, deitou-se por cima e este morreu — disse a primeira mulher, concluindo: Então ela trocou as crianças enquanto eu dormia, mas eu o percebi pela manhã.
A outra retrucou afirmando que a criança viva era sua e a morta da sua acusadora.
O jovem rei meditava pacientemente enquanto ouvia as trocas de acusações até que propôs uma solução:
— Tragam-me uma espada! Dividi em duas partes o menino vivo, e daí uma metade a uma e outra metade à outra!.
Provavelmente, você que lê esta história lembrou-se de uma outra semelhante: a história bíblica que conta como o jovem rei Salomão tornou-se famoso por sua sabedoria e admirado por todos.
Neste conto, como nas histórias de super-heróis, encontramos um momento no tempo em que uma escolha diferente cria um universo completamente diferente do original, uma nova linha do tempo, de forma que todas as possibilidades formam o multiverso.
Na nossa história uma das prostitutas ficou atônita; nada disse enquanto pensava em seu direito sobre a criança.
— Ele não será nem meu nem teu; dividi-o!
Reforçou a segunda mulher movida, talvez pela mágoa de ter perdido o filho ou porque acreditava que merecia a alegria de segurá-lo.
O jovem rei retardou a mão levantada em sinal enquanto olhava para a primeira mulher, que nada disse.
— O que desejas? — perguntou o rei, angustiado pela gravidade do momento.
O tempo que o rei esperou pela resposta dilatou-se no limite do tolerável, ao que essa respondeu:
— Tudo o que eu quero é que se faça justiça.
Não podemos dizer se foi o peso da responsabilidade de cumprir com sua palavra ou o atordoamento causado pela resposta da mulher, o fato é que o rei deixara o seu braço como se tivesse perdido o controle do membro. O soldado, ainda armado com a espada, fez o mesmo sobre a criança, fechando os olhos e desferindo o golpe fatal.
As duas mulheres, ao assistirem àquele terrível espetáculo, desabaram no chão, de joelhos: a primeira em prantos; e a outra, aturdida, repetia que não era isso que desejava.
O jovem rei, resignado, repousou a cabeça em suas mãos escondendo o rosto para não ver a descrença instalada nos olhos dos demais súditos, talvez prenunciando o fim de seu reinado.
As duas histórias, essa e a bíblica, têm algumas semelhanças: um jovem rei, recém coroado, que buscava a verdade e almejava praticar a justiça para com seus súditos, fez uma aposta arriscada no bom censo de uma mãe verdadeira; e duas mulheres sofridas porque desprezadas em razão de sua profissão, portanto depositando na criança uma esperança por um futuro melhor, defendiam aquilo o que acreditavam ser justo para si.
Porém, aqui temos um final terrível: a mãe, certa de seu direito, preferiu ir até às últimas consequências na defesa inconsequente das suas crenças e valores, daquilo que é “certo e justo”, sem perceber que deixara de proteger aquilo que havia de mais valioso para ela.
Assim como nesta história, vemos nossa sociedade dividida em posições extremadas: cada lado buscando apenas a justiça conforme o que acredita ser correto, deslegitimando o pensamento diverso. E é claro que devemos lutar pelo que acreditamos, mas qual é o limite? Até quando vale à pena a defesa de nossos interesses, necessidades ou crenças?
Na história bíblica, o Rei Salomão confiou que a verdadeira mãe colocaria o bem maior acima da sua própria vontade, ele sabia que uma mãe de verdade, independentemente de ter gerado seu filho ou não, jamais iria às últimas consequências para defender o seu direito pois sabe o que é mais importante. Uma mãe sabe que antes de se buscar a verdade, de fazer o que é certo, de reclamar o que é justo, que antes de tudo é necessário que a criança viva.